Plano Nacional de Banda Larga: primeiras ideias

by

Hilton Garcia Fernandes

No Brasil, o serviço de acesso à Internet com banda larga não é dos melhores do mundo. Comparado com países similares em desenvolvimento econômico, a banda larga brasileira é mais cara, mais sujeita a falhas e até mesmo tem menor capacidade média do que aquela destes países [1]. Comparações com países europeus ou asiáticos são ainda mais desfavoráveis [2].

A inferioridade brasileira se torna assombrosa à medida que aumenta a distância do eixo Rio-São Paulo [3].

Hoje é fato bem conhecido que a Internet é fator de desenvolvimento econômico e pessoal [4]. Ao ponto de que alguns pesquisadores associam muito fortemente a exclusão digital (dificuldade de usar computadores e Internet) com a exclusão social, a dificuldade de ter acesso ao mercado de trabalho e consumo [5].

Por isso, o Plano Nacional de Banda Larga, ou PNBL [6], é tão importante. Ele é uma iniciativa ampla para reduzir tanto nossa inferioridade (comparada à de outros países), como para reduzir disparidades regionais. Além de sua importância por si, o PNBL interfere em vários pontos do atual modelo de banda larga, o que gera um número infindável de polêmicas [7], sobre o modelo de negócios a ser adotado.

Diante das polêmicas e da importância para o futuro do país, o PNBL merece toda a atenção. Por esta razão, iniciamos com este uma série de entradas, ou posts, no blog Tecnologias sem Fio, para cobrir aspectos relevantes do PNBL.

Como a proposta do PNBL está sendo esperada para o início de março [6], vale aguardar sua formalização e iniciar a sequência pelo lado técnico, o que vai permitir a uniformização dos termos, uma vez que vários dos termos adotados na atual discussão têm significado pouco padronizado, havendo quem os interprete de forma diferente daquela que tem sido usada nas discussões sobre o PNBL.

Em primeiro lugar, vale a pena definir os termos backbone, backhaul e last-mile, pois são chave no desenho das propostas em discussão. Uma forma intuitiva é fazer analogia entre a distribuição de Internet e a distribuição de água tratada. Há grandes adutoras que levam a água de represas, como a Billings a pontos distantes delas. Essas adutoras são tão grandes que sua instalação tende a ser anunciada na imprensa [8].

Para distribuir água até a casa das pessoas, é feita a derivação de adutoras menores. Quem quer que tenha observado escavações nas ruas, terá visto que há adutoras de tamanhos inferiores, que levam a água a prédios. Por sua vez, nos prédios, os canos sofrem outro estreitamento, então chegam à casa das pessoas.

Em termos de terminologia de distribuição de Internet, as grandes adutoras poderiam ser chamadas de core network (ou rede principal), ou backbone [9]. As tubulações que passam pela rua são chamadas de edge network [10], ou “rede periférica”. O movimento de informações que é feito nela é chamado de backhaul [10]. E, por último, os canos mais finos que levam a água até a casa das pessoas são chamados de last mile [11].

Estes são termos muito mais práticos do que teóricos e sua definição não é unânime. Por exemplo, Há quem os defina igualando backhaul à movimentação de dados no backbone [12].

Tanto o backbone quanto as edge networks costumavam ser de uma única companhia. Estes são pontos que o PNBL está tentando mudar, em prol de uma maior concorrência na distribuição de Internet, o que, espera-se, deve diminuir os custos e aumentar a qualidade da Internet brasileira.

No próximo post, ou entrada, do blog Tecnologias sem Fio, será feito um maior detalhamento dos modelos de negócios que a discussão do PNBL está fazendo surgir. E, pari passu [13], será mais detalhado o modelo conceitual, ou a arquitetura, da rede mundial de computadores, a Internet.

Referências


[1] Banda Larga: Brasil perde vez na América Latina

Visitado em 19/02/2009


[2] Banda larga no Brasil é 35ª em ranking com 45 países

Visitado em 19/02/2009


[3] O custo da banda larga

Visitado em 19/02/2009


[4] Federal Communications Commission FCC 09-93 Before the Federal Communications Commission Washington, D.C. 20554 In the Matter of Preserving the Open Internet Broadband Industry Practices

Visitado em 19/02/2009


[5] SILVEIRA, Sérgio Amadeu da. Inclusão digital, software livre e globalização contra-hegemônica.

Visitado em 19/02/2009


[6] Telebrás, Eletronet e PNBL (162) – “Reunião do PNBL”: Análise de Clóvis Marques

Visitado em 19/02/2009


[7] Telebrás, Eletronet e PNBL (170) – Ainda a “Reunião do PNBL” + O “Anãozinho” + Resumo sobre o FUST + A Lei do FUST (íntegra)

Visitado em 19/02/2009


[8] ADUTORAS

Visitado em 19/02/2009


[9] Internet backbone

Visitado em 19/02/2009


[10] Backhaul (telecommunications)

Visitado em 19/02/2009


[11] Last mile

Visitado em 19/02/2009


[12] Appendix 7: Glossary | Report on Commerce Commission’s Local Loop and Fixed PDN Unbundling Investigation

Visitado em 19/02/2009


[13] Pari passu

Visitado em 19/02/2009

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Esta obra foi licenciada com uma Licença Creative Commons – Atribuição – Partilha nos Mesmos Termos 3.0 Não Adaptada.

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3 Respostas to “Plano Nacional de Banda Larga: primeiras ideias”

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