PNBL, lá e cá (Parte 2 de 4)

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Hilton Garcia Fernandes

Este é o segundo da série quatro artigos sobre um pequeno panorama de planos nacionais de banda larga. O primeiro foi publicado neste blog em [1]. Será aqui brevemente discutido o planos nacional de banda larga dos EUA. A seguir serão comentados os planos da Malásia e da África do Sul. A conclusão tentará resumir todos os pontos polêmicos vistos aqui.

EUA

O famoso The Wall Street Journal [2] publicou recentemente matéria [3] contestando a necessidade de um plano nacional de banda larga para os EUA. Diz a matéria [3] que é falso afirmar que os EUA ocupem o décimo quinto lugar entre os países do mundo quanto à penetração de banda larga per capita. Depois de argumentações demográficas, a matéria finalmente reposiciona os EUA em… décimo lugar. E este era o país que se orgulhava de ter a melhor educação, os melhores indicadores sociais — tudo sempre usado como demonstração da pujança da nação americana e do próprio capitalismo.

The Wall Street Journal foi recentemente associado a um grupo de polemistas conservadores [4], que a expressividade americana talvez chamasse de spin doctors [5], ou especialistas em ilusão e desinteligência. O autor do artigo [5] não é nenhum esquerdista radical, mas sim o notório Jeffrey Sachs [6].

Mas a revista The Economist, que dificilmente poderia ser chamada de esquerdista tem artigo [7] que retira a discussão do subjetivismo. Para explicar porque tantas cidades americanas se esforçam para receber as redes FFTH [8] do Google, The Economist mostra que todos os países desenvolvidos têm situação de banda muito melhor que aquele dos EUA. E os últimos argumentos que retirariam os EUA de sua má situação são derrubados no debate que promoveram os leitores do artigo [9]. Por exemplo, a densidade populacional dos EUA (32 hab/km2 [10]), apesar de maior do que de alguns países europeus — como a Suécia, com 20,6 hab/km2 [11] — não justifica uma diferença tão grande de oferta de banda larga: diz o artigo da Economist [7] que a Suécia tem banda larga de 100 megabits por segundo a 24 dólares. Ao passo que nos EUA, paga-se 145 dólares por 50 mbps [7]. Um outro ponto triste do artigo é que coloca os EUA não em décimo quinto lugar em penetração de Internet, mas como décimo-nono lugar entre os países da OECD [12].

Assim, um plano nacional de banda larga é estritamente necessário nos EUA, para manter a competitividade do país vis-a-vis outras economias desenvolvidas. E é o que propôs a administração Obama, chamada algumas vezes de não-capitalista por luminares como aqueles que escrevem em The Wall Street Journal [2].

Na página de anúncio do The National Broadband Plan (ou NBP) [13], a divisão do FCC americano, similar à ANATEL brasileira, comenta que o plano propõe um planejamento ousado do futuro dos EUA, visando o crescimento econômico, a geração de empregos e a aceleração das capacidades do país em educação, saúde, segurança e outros.

E, sim, há ousadia no NBP:

  • em 2020, pelo menos 100 milhões de lares dos EUA deverão ter acesso a conexões de banda larga de 100 megabits por segundo.

    Por mais que os números 100 milhões de banda e de alcance sejam de marketing, bandas como esta já estão presentes em países desenvolvidos, a penetração é proporcional à população do país;

  • Os EUA devem liderar na pesquisa de redes sem fio e oferecê-las em número e cobertura maiores do que aquelas de qualquer outra nação.

Outros itens da proposta propõem metas também ousadas a respeito de redes sem fio como forma de aumentar a tolerância a falhas de uma rede nacional e de aumentar a eficiência no consumo de energia [13]. Sem falar, é claro, na redução da exclusão digital através da educação dos americanos para o uso de computadores.

Um ponto importante do NBP é de onde sairá o recurso para financiar a iniciativa privada e atividades governamentais. Na versão atual do plano, comentada pelo portal Convergência Digital [14], na matéria “EUA define o Plano Nacional de Banda Larga” [14], possivelmente do Fundo de Universalização também disponível lá. Os detalhes com certeza serão negociados com o congresso, já que se estima o custo total do projeto em 350 bilhões de dólares, dos quais o governo gastaria cerca de 16, apenas.

Um ponto tocado pela matéria da Economist [7], mas deixado de lado na matéria do Wall Street Journal [3], é a explicação de porque nos EUA a banda larga é tão cara, tem tão pouca penetração e mesmo baixa capacidade.

A explicação talvez surpreenda quem ache o governo Obama realmente socialista — mas não vai surpreender quem saiba que a Economist é verdadeiramente capitalista: trata-se de falta de competição. A velha e boa competição capitalista é que faz com que as empresas façam investimentos e baixem custos.

Nos EUA, em muitos casos há um duopólio. Os comentários dos leitores da Economist a respeito do artigo [9] trazem dados interessantes: a Romênia, recém saída de uma ditatura ao estilo soviético, montou um modelo de privatização das telecomunicações, que, segundo eles, garante que bandas de 20 Mbps possam ser contratadas lá por apenas 9 euros, ou cerca de 12,5 dólares.

Enfim, um ponto importante do NBP é restaurar a concorrência entre companhias de telecomunicação. Como fazer isto é algo que terá que ser negociado com toda a sociedade. E isto inclui a participação das companhias que hoje auferem o duopólio. Talvez elas não achem isso uma boa ideia…

Enfim, haverá muita oposição que o NBP terá de enfrentar.

Referências

[1] PNBL, lá e cá (Parte 2 de 2)
https://tecnologiassemfio.wordpress.com/2010/03/11/pnbl-la-e-ca-parte-1-de-2/
Visitado em 17/03/2010

[2] https://secure.wikimedia.org/wikipedia/en/wiki/Wall_street_journal
https://secure.wikimedia.org/wikipedia/en/wiki/Wall_street_journal
Visitado em 19/03/2010

[3] A ‘National Broadband Plan’
http://online.wsj.com/article/SB10001424052748703652104574652501608376552.html
Visitado em 19/03/2010

[4] Climate sceptics are recycled critics of controls on tobacco and acid rain
http://www.guardian.co.uk/environment/cif-green/2010/feb/19/climate-change-sceptics-science
Visitado em 19/03/2010

[5] Spin (public relations)
https://secure.wikimedia.org/wikipedia/en/wiki/Spin_doctor
Visitado em 19/03/2010

[6] Jeffrey Sachs
https://secure.wikimedia.org/wikipedia/en/wiki/Jeffrey_Sachs
Visitado em 19/03/2010

[7] Googlenet: A cure for America’s lame and costly broadband?
http://www.economist.com/science-technology/displaystory.cfm?story_id=15841658
Visitado em 23/04/2010

[8] Fiber to The X
https://secure.wikimedia.org/wikipedia/en/wiki/Ftth
Visitado em 23/04/2010

[9] Googlenet: A cure for America’s lame and costly broadband? — Readers’ comments
http://www.economist.com/node/15841658/comments
Visitado em 23/04/2010

[10] USA
https://secure.wikimedia.org/wikipedia/en/wiki/USA
Visitado em 23/04/2010

[11] Sweden
https://secure.wikimedia.org/wikipedia/en/wiki/Sweden
Visitado em 23/04/2010

[12] OECD
https://secure.wikimedia.org/wikipedia/en/wiki/Oecd
Visitado em 23/04/2010

[13] The National Broadband Plan
http://www.broadband.gov/plan/
Visitado em 23/04/2010

[14] Convergência Digital
http://convergenciadigital.uol.com.br/
Visitado em 23/04/2010

[15] EUA definem o Plano Nacional de Banda Larga
http://convergenciadigital.uol.com.br/cgi/cgilua.exe/sys/start.htm?infoid=21996&sid=4
Visitado em 23/04/2010

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