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Cidades inteligentes: arquitetura (1/4)

7 de abril de 2011

Hilton Garcia Fernandes

Este é o primeiro de uma série de textos sobre cidades inteligentes. Aqui se define o termo e se trata de uma possível arquitetura para cidades inteligentes. Outros textos abordarão mais ângulos do tema.
Cidades inteligentes podem ser definidas, de modo simples como aquelas capazes de resolver  coletivamente seus problemas.

Esta não é uma definição consensual: inteligência é um dos temas mais complexos e controvertidos em psicologia [1]. O conceito de inteligência coletiva [2], ainda muito novo, tem ainda mais complexidade e controvérsia. E, por sua vez, a conceituação de cidade inteligente ainda está longe de convergir para uma única linha de pensamento [3].

Ainda assim, vale a pena manter a definição, pois é bastante prática e pode nortear projetos a serem realizados em países similares ao Brasil.

Uma cidade inteligente usa serviços tornados possíveis graças a uma infraestrutura de rede disponível para toda cidade [4]. Ou seja: uma cidade inteligente se constrói por sobre uma cidade digital [5].

Teoricamente, seria possível que uma cidade tivesse discussão e solução coletiva de seus problemas apenas por conversas de pé-de-ouvido. Mas isto seria possível apenas para cidades muito pequenas. E mesmo nelas, a Internet fornece ferramentas tão convenientes que permite que discussões mais extensas sejam registradas com mais eficácia do que através da comunicação oral.

Arquitetura conceitual de uma cidade inteligente

Para entender esta proposta de cidade inteligente, vale a pena examinar a figura abaixo.


Infraestrutura é a disponibilidade de uma rede aberta para toda a cidade, oferecida pela cidade digital. Integração é o fato de toda cidade estar efetivamente se comunicando para resolver problemas comuns.

O nível de Serviços, ainda não comentado, contém justamente os serviços que vão permitir essa integração.

Para uma representação mais breve no desenho, os diferentes serviços são representados por números. Uma possível lista deles pode ser:

  1. Telecentros: locais onde há computadores disponíveis para se acessar a Internet. Naturalmente, isto é essencial para a parte da população que não tem computadores;
  2. Museu virtual: levantamento da cultura local, apresentação em museu na Internet, com incentivo à continuada inclusão de material — seja de memória, seja material novo.
    É visão da equipe que a geração de cultura é forma de remover o isolamento de cidades ou comunidades que não se sentem parte do fluxo de informações mais usual. E assim, elevar sua autoestima.
  3. Treinamento para geração de conteúdo, no sentido amplo.
    Em Barra Bonita-SP, no projeto Barra Digital, foram dados cursos de Joomla para criação de sites Web. Neste caso incluiriam também criação de textos e imagens. Sempre através de ferramentas de Software Livre;
  4. Suporte à 3a Idade: esta faixa de idade merece especial atenção, mesmo quando são ministrados a ela cursos similares a outros. Afinal, são pessoas que têm maior resistência a computadores, sentem-se fora deste tempo e eventualmente podem ter diminuição de visão, de movimentos e de raciocínio — por razões físicas ou psicológicas.
    À parte isso, têm todo um conteúdo e experiência que não deve ser desprezado pela comunidade.  Também aqui a Internet pode ser ferramenta para reduzir o isolamento físico que, muitas vezes impede o pronto socorro a enfermidades e emergências;
  5. Influência na escola convencional: treinamento de professores para que aulas convencionais possam ser complementadas por geração de conteúdo.
    Por exemplo, uma aula de geografia física sobre a Serra do Mar dará origem a diversas entradas de blogs, nos quais os alunos exporão e complementarão o conteúdo mostrado em sala;
  6. E-gov, ou governo eletrônico: softwares para gestão interna da prefeitura, e para oferecer serviços informatizados à população.
    Por exemplo, a população poderá ver sua situação fiscal mediante consulta a página da prefeitura. E eventualmente resolvê-la também pela rede da cidade digital.
    Do mesmo modo, através da rede da cidade digital todo sistema de saúde da prefeitura se interconectará, minorando fraudes e aumentando o controle e a transparência;
  7. Monitoração: nas cidades inteligentes, a monitoração diz respeito à utilização otimizada de sistemas que lidem com sinais de áudio e vídeo, pertencentes a locais que demandem atenção especial.
    Esses sistemas incluem mas não se limitam a circuitos tradicionais de câmeras embora estes últimos, chamados sistemas CFTV concentrem a maior parte dos investimentos em vigilância.. Outro sistemas de monitoração podem incluir sensores audio.
    Os sinais de áudio e vídeo são coletados por seus respectivos sensores e enviados a uma central onde são analisados e armazenados por um período eventualmente definido por lei;
  8. Economia solidária: desenvolvimento econômico de comunidades através de procedimentos que enfatizam a solidariedade entre pessoas, ao mesmo tempo que buscam racionalmente colocação no mercado para produtos que a comunidade pode oferecer [6];
  9. Suporte à rede: manutenção simples da rede treinamento para compra de equipamentos, instalação básica e treinamento para instalação independente.
    Este serviço é análogo ao treinamento básico em telecentros, à medida que permite que usuários com computadores próprios possam operar na Internet;
  10. Mobilidade urbana: a infraestrutura de cidade inteligente permite comunicação entre automóveis e ônibus em movimento e computadores localizados próximos à via. Isto permite, por exemplo:
    1. Saber com precisão onde está um ônibus — isto é importante tanto para logística do transporte, quanto para a segurança dos passageiros (assaltos) e do próprio ônibus;
    2. Saber quanto tempo um ônibus levará para chegar a um dado ponto, o que é muito útil para os passageiros esperando no ponto;
    3. Dado um número suficiente de pontos de recepção dos sinais dos automóveis e ônibus passantes, é possível conhecer melhor a estrutura de velocidades da cidade e, assim fazer alterações do fluxo do trânsito para melhorá-lo. Ou até alterar as próprias ruas, aumentando larguras onde são realmente necessárias;
  11. Grid inteligente ou smart grid: o termo designa uma rede elétrica com elementos capazes de se comunicar e assim prover um comportamento inteligente para todo o sistema [7] — o que é importante para resolver catástrofes e otimizar o uso da rede elétrica. Anteriormente, toda inteligência ficava nas estações e subestações.
    Quase toda apresentação sobre grids inteligentes menciona que em um deles as casas vão poder comprar energia em momentos em que ela está disponível, armazená-la e revendê-la ao sistema quando há muita necessidade e, portanto, ela está mais cara.
    Deste modo, casas inteligentes vão poder tanto auxiliar o sistema, quanto gerar receita para seus usuários.

Referências

[1] Inteligência
https://secure.wikimedia.org/wikipedia/pt/wiki/Intelig%C3%AAncia
Visitado em 25/03/2011

[2] Inteligência coletiva
https://secure.wikimedia.org/wikipedia/pt/wiki/Intelig%C3%AAncia_coletiva
Visitado em 25/03/2011

[3]Cidade Inteligente
https://secure.wikimedia.org/wikipedia/pt/wiki/Cidade_inteligente
Visitado em 07/04/2011

[4]Cidades inteligentes – cidades digitais – ambientes inteligentes — Cidade Inteligente
https://secure.wikimedia.org/wikipedia/pt/wiki/Cidade_inteligente#Cidades_inteligentes_-_cidades_digitais_-_ambientes_inteligentes
Visitado em 07/04/2011

[5] Cidades digitais — tentativa de definição
https://tecnologiassemfio.wordpress.com/2010/05/22/cidades-digitais-tentativa-de-definicao/
Visitado em 25/03/2011

[6] Economia solidária
https://secure.wikimedia.org/wikipedia/pt/wiki/Economia_solid%C3%A1ria
Visitado em 07/04/2011

[7] O Projeto Évora de Smart Grids
http://liberdadenafronteira.blogspot.com/2011/02/o-projeto-evora-de-smart-grids.html
Visitado em 07/04/2011

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Cidades digitais — tentativa de definição

22 de maio de 2010

Hilton Garcia Fernandes

Cidade digital é um termo que tem alguma popularidade. Talvez por isso, tem significados diferentes para diferentes pessoas. Para o Ministério das Telecomunicações, por exemplo, em [1], qualquer cidade que tenha conexão com a Internet é uma cidade digital. Devido à universalização das telecomunicações, praticamente qualquer cidade brasileira tem acesso à Internet — mesmo que tenha que fazer uma ligação interurbana ao ponto de presença de Internet mais próximo, como tem sido o caso de cidades até mesmo de Minas Gerais.

Para outras pessoas, cidade digital é cidade que tem presença marcante na Internet, muitas vezes através de portais de governo eletrônico [2], ou e-gov, onde a população pode solicitar serviços da prefeitura e acompanhar online a prestação de contas da prefeitura.

André Lemos [3], pesquisador da UFBA, publicou artigo [4] onde levanta os vários significados possíveis do termo no uso cotidiano e acadêmico. Juliano Castilho Dall’Antonia [5], pesquisador do CPqD, fez apresentação [6] no evento Wireless Mundi 5 [7] onde lançou a noção de uma hierarquia de implementações de características de uma cidade digital, que começa com o acesso básico e chega até à cidade digital plena.

Neste texto, vamos seguir abordagem prática de identificar o termo cidade digital com o uso mais corrente no contexto dos técnicos brasileiros, no qual cidade digital significa uma cidade amplamente coberta por uma rede sem fio integrada, que permite acessar a Internet, em geral oferecida gratuitamente pela municipalidade, ou por uma organização não governamental (ONG), caso em que o acesso pode ter um custo, em geral muito baixo.

Para evitar a ambiguidade do termo cidade digital, nos EUA tem sido adotado o termo municipal wireless network [8], ou rede municipal sem fio, que eles preferem abreviar por municipal wi-fi, ou até muni wi-fi, devido ao fato de que hoje as redes que chegam ao cidadão sejam normalmente do tipo chamado Wi-Fi [9].

Pela amplitude da oferta de acesso à Internet e por seu baixo custo, redes desse tipo têm um impacto grande na comunidade, tanto em termos educacionais, quanto em termos empresariais, como até turísticos.

A respeito do impacto na educação, a cidade de Sud Mennucci-SP [10] é um bom exemplo brasileiro, pois seus estudantes têm tido bons resultados quando comparados com estudantes de cidades maiores [11]. E também é por razões semelhantes que várias iniciativas educacionais como o OLPC (One Laptop per Child) [12] têm usado a informática na educação com amplo acesso à Internet [13].

Quanto ao incentivo às empresas que essas redes oferecem, pode-se citar desde um resultado de econometria que mostra que as empresas são atraídas por empresas com maior infraestrutura em informática, do mesmo modo que são repelidas por cidades com menor infraestrutura [14]. Além disso, no caso do Brasil, cidades como Quissamã-RJ [15], têm recebido interesse de empresas graças a sua facilidade de acesso à Internet, hoje muito importante para os negócios.

Quanto ao incentivo para o turismo, o exemplo brasileiro de Tiradentes-MG [16] é relevante. Esta cidade turística passou a ser mais considerada por turistas que, mesmo em viagem, não querem perder o contacto com o resto do mundo através da Internet. O que talvez signifique duas coisas: uma que, no mundo competitivo de hoje, as pessoas talvez não possam se isolar do trabalho mesmo durante suas férias; ou então, que hoje a Internet se usa a Internet não apenas para trabalhar, mas para sua convivência pessoal. Naturalmente, uma opção não exclui a outra.

Proposta de conceito

Nossa proposta de cidade digital é apenas aplicar o conceito que está muito divulgado em propostas como aquela de Tiradentes [16]. Ele pode ser resumido na matéria [17] do portal How stuff works [18] (ou “como as coisas funcionam”): um conjunto de equipamentos do tipo AP [18], eventualmente conectados em malha [19], nos quais alguns têm o papel de gateways e se comunicam com a Internet. Isto pode ser resumido na imagem a seguir, trazida de [17], na qual a linha traçada em azul mostra o acesso à Internet, o que é chamado de backhaul [20].

Esquema simplificado de rede mesh

Esquema de rede mesh em cidade digital

Crítica do conceito

Tem havido uma reflexão na Web em português a respeito de uma cidade digital ser mais do que sua infra-estrutura [21]. É de bom senso que se cria uma cidade digital para obter incrementos em educação, empreendedorismo e atividade econômica, como já mostram os casos clássicos brasileiros já comentados antes. Contudo, em nenhuma das páginas Web encontradas há clareza sobre o que realmente seria esse algo mais. Trata-se principalmente de uma listagem de propostas gerais de e-gov, principalmente na saúde, com aplicação da Internet à educação etc.

Um conceito que pareceria frutífero é o de cidades inteligentes [22]. Uma cidade inteligente seria uma cidade capaz de se organizar para atuar de modo inteligente; uma cidade inteligente pressupõe na base uma cidade digital, inteiramente conectada por uma rede única, em geral digital, conforme descrito antes.

Contudo, o conceito de cidade inteligente até aqui levou principalmente a estudos especulativos e também não parece indicar soluções práticas — por isto é insuficiente para o administrador público. Assim, estudos na linha da economia do desenvolvimento regional, ou Estudos Regionais [23] parecem ter capacidade propositiva — já sendo encampados por instituições como o SEBRAE [24]. Estudos nesta linha fazem avaliação bem informada e fundamentada de ações de redução da exclusão digital aplicadas nos EUA [25].

Concluindo, parecem ser necessários estudos e práticas baseadas no conceito de cidade inteligente [22], mas calcados nos impactos das cidades digitais na economia, que tem sido feitos nos EUA [25], que seguem a linha dos estudos regionais [23]. O SEBRAE-SP já iniciou trabalhos em linha próxima a esta [24].

Referências

[1] As cidades digitais no mapa do Brasil: Uma rota para a inclusão social
http://www.cpqd.com.br/component/docman/doc_download/146-as-cidades-digitais-no-mapa-do-brasil.html
Visitado em 13/05/2010

[2] São Paulo é a cidade mais digital da América Latina, aponta pesquisa
http://idgnow.uol.com.br/internet/2009/10/27/sao-paulo-e-a-cidade-mais-digital-da-america-latina/
Visitado em 14/05/2010

[3] Carnet de Notes — Bios
http://andrelemos.info/about/
Visitado em 14/05/2010

[4] O que é Cidade Digital?
http://www.guiadascidadesdigitais.com.br/site/pagina/o-que-cidade-digital
Visitado em 14/05/2010

[5] Juliano Castilho Dall’Antonia
http://dgp.cnpq.br/buscaoperacional/detalhepesq.jsp?pesq=0822860019291028
Visitado em 14/05/2010

[6] O que esperar de uma Cidade Digital Plena
http://www.arede.inf.br/images/stories/arquivos/wirelless_mundi/5wirelessmundi/julianodallantonia-cpqd.pdf
Visitado em 14/05/2010

[7] 5º Wireless Mundi
http://www.arede.inf.br/inclusao/component/content/article/2040-5-wireless-mundi
Visitado em 14/05/2010

[8] Municipal Wireless Network
https://secure.wikimedia.org/wikipedia/en/wiki/Municipal_wireless_network
Visitado em 14/05/2010

[9] Wi-Fi
https://secure.wikimedia.org/wikipedia/en/wiki/Wi-Fi
Visitado em 14/05/2010

[10] Sud Mennucci (São Paulo)
https://secure.wikimedia.org/wikipedia/pt/wiki/Sud_Mennucci_%28S%C3%A3o_Paulo%29
Visitado em 14/05/2010

[11] LETRAMENTO E INCLUSÃO DIGITAL: A INFLUÊNCIA DA INTERNET NA CONSTRUÇÃO DOS HÁBITOS DE LEITURA DE ALUNOS DE EJA
http://www.alb.com.br/anais16/sem01pdf/sm01ss08_06.pdf
Visitado em 14/05/2010

[12] One Laptop per Child
https://secure.wikimedia.org/wikipedia/en/wiki/Olpc
Visitado em 14/05/2010

[13] Information and communication technologies in education
https://secure.wikimedia.org/wikipedia/en/wiki/Information_and_communication_technologies_in_education
Visitado em 14/05/2010

[14] EFFECT OF ODA IN INFRASTRUCTURE IN ATTRACTING FDI INFLOWS IN VIETNAM
http://www.grips.ac.jp/vietnam/VDFTokyo/Doc/39PTHien15Dec07PPT.pdf
Visitado em 14/05/2010

[15] Quissamã
https://secure.wikimedia.org/wikipedia/pt/wiki/Quissam%C3%A3
Visitado em 14/05/2010

[16] Tiradentes (Minas Gerais)
https://secure.wikimedia.org/wikipedia/pt/wiki/Tiradentes_%28Minas_Gerais%29
Visitado em 17/05/2010

[17] How Municipal WiFi Works
http://computer.howstuffworks.com/municipal-wifi.htm
Visitado em 19/05/2010

[18] How Stuff Works
http://computer.howstuffworks.com
Visitado em 19/05/2010

[19] Wireless Access Point
https://secure.wikimedia.org/wikipedia/en/wiki/Access_point
Visitado em 19/05/2010

[20] Redes mesh e grafos
https://tecnologiassemfio.wordpress.com/2010/02/19/plano-nacional-de-banda-larga-primeiras-ideias/
Visitado em 21/05/2010

[21] Por que fazer uma cidade digital?
http://www.cpqd.com.br/imprensa-e-eventos/the-news/4347-por-que-fazer-uma-cidade-digital.html
Visitado em 19/05/2010

[22] Intelligent city
https://secure.wikimedia.org/wikipedia/en/wiki/Intelligent_city
Visitado em 21/05/2010

[23] Regional science
https://secure.wikimedia.org/wikipedia/en/wiki/Regional_science
Visitado em 19/05/2010

[24] Estudos regionais | Portal SEBRAE-SP
http://www.sebraesp.com.br/conhecendo_mpe/setoriais_regionais/regionais
Visitado em 21/05/2010

[25] Measuring broadband’s economic impact
http://citeseerx.ist.psu.edu/viewdoc/download?doi=10.1.1.86.7956&rep=rep1&type=pdf
Visitado em 21/05/2010

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PNBL, lá e cá (parte 3 de 4)

11 de maio de 2010

Hilton Garcia Fernandes

Este é o terceiro de uma série de quatro artigos sobre planos nacionais de banda larga em outros países. Já foram publicados textos sobre a Austrália [1] e sobre os EUA [2]. Este texto comentará a situação da Malásia [3]. O próximo texto discutirá o plano nacional da África do Sul. A conclusão tentará resumir todos os pontos polêmicos vistos aqui.

Malásia

A Malásia [3] é a terra do Multimedia Super-Corridor (MSC) [4], infovia que seria capaz de fazer a Malásia saltar diretamente para a Era da informação [5].

Contudo, a julgar pelos muitos blogs a respeito, a situação da Malásia não é das melhores, do ponto de vista da banda larga: imagem em anexo mostra expectativas dos blogueiros malaios a respeito da super banda larga que será disponível para o país [6].

Malaysia’s ‘High Speed’ ‘Broadband’ should not turn out into low speed narrowband!

Malaysia’s ‘High Speed’ ‘Broadband’ should not turn out into low speed narrowband!

Crítica mercadista ao MSC ?

A princípio, o caso da Malásia seria perfeito para pessoas com posições mercadistas — contrárias à participação do estado no planejamento da oferta de acesso à Internet, entre outras coisas. Afinal, um projeto governamental e público fracassa, o que é um prova de que apenas as soluções baseadas no mercado são funcionais, pensariam pessoas com esse tipo de posição.

Contudo, na Internet não pode ser encontrada nenhuma crítica mercadista ao MSC da Malásia. Por que seria esse silêncio ? Um pouco de história, tanto contada pelos blogueiros como pelos acadêmicos poe ajudar a esclarecer este ponto.

Descrevendo o MSC

A Malásia pode ser descrita pelo mapa a seguir, como duas grandes massas continentais disjuntas, que juntas atingem cerca de 330.000 km2 [7].

Mapa da Malásia

Mapa da Malásia

O MSC, como aponta [4], nunca planejou cobrir todo o país — nem mesmo partes significativas dele — conforme pode ser visto na figura a seguir, obtida de [8].

Visão contextual do MSC da Malásia

MSC no contexto da Malásia

Segundo [4], o MSC é um retângulo de 15 km por 50 km, ou 750 km2 — compare-se com o 330.000 km2 da área total do país. Segundo [9], desde 2006 inclui também o que poderia ser chamado de Grande Kuala Lumpur, ou os subúrbios da capital do país — mas com certeza por agora esse alcance se limita às empresas, pois — a julgar pelos blogs encontrados — a população de Kuala Lumpur se soma às reclamações sobre Internet de outras partes do país.

Desde o início, o MSC foi projetado pára realmente ser um corredor, que oferece muitas vantagens para empresas que se filiem a ele, instalando-se na Malásia. O projeto foi lançado com o apoio de muitas empresas, entre elas a Microsoft [10]. Foi intensamente aplaudido por páginas e portais com visão corporativa e empresarial [11].

Status atual do MSC

Mas assim como foi aplaudido, foi também esquecido: hoje é dificil encontrar referências a ele que não sejam aquelas das revisões acadêmicas [12] ou das reclamações, mais [13] ou menos [14] analíticas, em blogs de usuários. Uma avaliação acadêmica [15] aponta para um exagero de ufanismo tecnológico.

Estudos independentes, como o GBS [16] e o Relatório de Competitividade Econômica [17], do Fórum Econômico Mundial, colocam a Malásia em posição bastante inferior àquela de países vizinhos na Ásia — próxima de países do terceiro mundo como o Brasil. Isto é bastante sentido em blogs, como [18] , aos quais a posição é considerada humilhante para o orgulho nacional e frustrante, diante dos bilhões de dólares gatos na construção do MSC.

Aparentemente, conforme indica [13], do DEMA (Movimento Democrático Malaio da Juventude e dos Estudantes) [19], há um monopólio da estatal malaia no que se refere ao last mile [20]. Isto acarreta uma ausência de concorrência, que gera preço mais elevado do que o padrão dos países vizinhos, ao mesmo tempo que baixa bastante a qualidade dos serviços: além da baixa capacidade, do custo elevado, são repetitivas críticas dos usuários às falhas dos serviços [21].

Conclusões

É extremamente difícil tirar conclusões da experiência malaia: afinal, trata-se de cultura extremamente diferente da brasileira. Ou culturas, já que a Malásia é composta de várias culturas e línguas diferentes [3]. Em termos gerais, poderia ser chamada de uma ditadura [22], apesar de haver eleições e alguma rotação no poder — similar talvez àquela da ditadura brasileira [23]. De qualquer modo, um dos lemas da associação nacional de estudantes é introduzir a democracia no país [19].

Quanto ao plano nacional de banda larga implantado pelo governo, aparentemente ele fracassou — afinal as críticas não vêm apenas de relatos acadêmicos [15], depoimentos de estudantes [13] e de blogueiros [14]. Mas entrevista do próprio gestor do MSC [24] admite que o desenvolvimento da tecnologia no próprio país ficou muito aquém do esperado. Isto faz lembrar previsões acadêmicas de 2002 a respeito do MSC [8], que afirmavam que, para o desenvolvimento tecnológico ocorrer, seria necessário que partes maiores da população estivessem envolvidas — não apenas empresas trazidas de fora, que quando muito educariam tecnologicamente uma pequena parcela da população.

Que lições poderiam ser tiradas, com viés para o contexto brasileiro de políticas públicas ? Talvez as seguintes sejam mais visíveis:

  • nem toda iniciativa governamental está fadada ao sucesso — como diria o pensamento mercadista;
  • nem toda iniciativa voltada ao mercado gerará riqueza ou terá sucesso, por mais que o mercado possa aplaudi-la;
  • políticas públicas devem visar o grande público, não um conjunto limitado e/ou elitizado de empresas: os ganhos econômicos serão maiores se em escala;
  • tanto isso é verdade que os organismos internacionais avaliam principalmente a penetração da Internet na população. Inicialmente, em termos de penetração nos domícilios do país, mas agora também em termos de sua capacidade de transferência de informação [16];
  • por último, mas não menos relevante no caso brasileiro, uma política de subsídios é insuficiente para gerar desenvolvimento e inovação tecnológica.

Referências

[1] PNBL, lá e cá (parte 1 de 4)
https://tecnologiassemfio.wordpress.com/2010/03/11/pnbl-la-e-ca-parte-1-de-2/
Visitado em 07/05/2010

[2] PNBL, lá e cá (parte 2 de 4)
https://tecnologiassemfio.wordpress.com/2010/04/23/pnbl-la-e-ca-parte-2-de-3/
Visitado em 07/05/2010

[3] Malaysia
https://secure.wikimedia.org/wikipedia/en/wiki/Malaysia
Visitado em 07/05/2010

[4] Multimedia Super-Corridor
https://secure.wikimedia.org/wikipedia/pt/wiki/Multimedia_Super_Corridor
Visitado em 11/05/2010

[5] Information Age
https://secure.wikimedia.org/wikipedia/en/wiki/Information_Age
Visitado em 11/05/2010

[6] Malaysia’s ‘High Speed’ ‘Broadband’ should not turn out into low speed narrowband!
http://drkokogyi.wordpress.com/2010/03/24/malaysias-high-speed-broadband-should-not-turn-out-into-low-speed-narrowband/
Visitado em 11/05/2010

[7] Geografia da Malásia
http://pt.wikipedia.org/wiki/Geografia_da_Mal%C3%A1sia
Visitado em 11/05/2010

[8] Multimedia Utopia? A Geographical Critique of High-Tech Development in Malaysia’s Multimedia Super Corridor
http://profile.nus.edu.sg/fass/geotgb/Final%20Paper.pdf
Visitado em 11/05/2010

[9] Reference for Multimedia Super Corridor
http://www.search.com/reference/Multimedia_Super_Corridor
Visitado em 11/05/2010

[10] Bill Gates Officially Opens Microsoft Knowledge Capital Centre — MKCC and MMU partnership reinforces commitment to MSC
http://www.microsoft.com/Presspass/press/2000/sept00/malaysia3pr.mspx
Visitado em 11/05/2010

[11] MSC Multimedia Super Corridor Malaysia | Brands of the World
http://www.brandsoftheworld.com/logo/msc-multimedia-super-corridor-malaysia
Visitado em 11/05/2010

[12] SEMPER EADEM? FIFTY YEARS OF US-MALAYSIAN ECONOMIC
RELATIONS
http://eprints.um.edu.my/140/1/YACOB.pdf
Visitado em 11/05/2010

[13] Malaysia Broadband: A Harsh Reality ” DEMA – Malaysia Youth and Students Democratic Movement
http://demamalaysia.wordpress.com/2009/12/27/malaysia-broadband-a-harsh-reality/
Visitado em 11/05/2010

[14] Digi Internet: Broadband done all wrong…
http://freeweelee.wordpress.com/2010/02/15/digi-internet-broadband-done-all-wrong/
Visitado em 11/05/2010

[15] Multimedia Utopia? A Geographical Critique of High-Tech Development in Malaysia’s Multimedia Super Corridor
http://profile.nus.edu.sg/fass/geotgb/Final%20Paper.pdf
Visitado em 11/05/2010

[16] Broadband Quality Score — A global study of broadband quality September 2009
http://www.sbs.ox.ac.uk/newsandevents/Documents/Broadband%20Quality%20Study%202009%20Press%20Presentation%20%28final%29.pdf
Visitado em 11/05/2010

[17] The Global Competitiveness Report 2009–2010
http://www.weforum.org/pdf/GCR09/GCR20092010fullreport.pdf
Visitado em 11/05/2010

[18] MSC nation in the last third of broadband ranking…
http://hsudarren.wordpress.com/2009/10/02/msc-nation-in-the-last-third-of-broadband-ranking/
Visitado em 11/05/2010

[19] Malaysia Youth And Students Democratic Movement
http://demamalaysia.wordpress.com/introduction-of-dema/
Visitado em 07/05/2010

[20] Last mile
https://secure.wikimedia.org/wikipedia/en/wiki/Last_mile
Visitado em 11/05/2010

[21] Malaysia’s broadband quality is below par, says Oxford study
http://www.themalaysianinsider.com/malaysia/article/Malaysias-broadband-quality-is-below-par-says-Oxford-study-/
Visitado em 11/05/2010

[22] Malaysia Civil and Political Rights Report 2008: Overview
http://www.digitalibrary.my/dmdocuments/malaysiakini/788_Suaram-Overview-2008-English-Final.pdf
Visitado em 11/05/2010

[23] Regime militar no Brasil (1964-1985)
https://secure.wikimedia.org/wikipedia/pt/wiki/Regime_militar_no_Brasil_%281964-1985%29
Visitado em 11/05/2010

[24] MSC Malaysia: Continuing a legacy
http://findarticles.com/p/articles/mi_qn6207/is_20090401/ai_n31517225/?tag=content;col1
Visitado em 11/05/2010

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PNBL, lá e cá (Parte 2 de 4)

23 de abril de 2010

Hilton Garcia Fernandes

Este é o segundo da série quatro artigos sobre um pequeno panorama de planos nacionais de banda larga. O primeiro foi publicado neste blog em [1]. Será aqui brevemente discutido o planos nacional de banda larga dos EUA. A seguir serão comentados os planos da Malásia e da África do Sul. A conclusão tentará resumir todos os pontos polêmicos vistos aqui.

EUA

O famoso The Wall Street Journal [2] publicou recentemente matéria [3] contestando a necessidade de um plano nacional de banda larga para os EUA. Diz a matéria [3] que é falso afirmar que os EUA ocupem o décimo quinto lugar entre os países do mundo quanto à penetração de banda larga per capita. Depois de argumentações demográficas, a matéria finalmente reposiciona os EUA em… décimo lugar. E este era o país que se orgulhava de ter a melhor educação, os melhores indicadores sociais — tudo sempre usado como demonstração da pujança da nação americana e do próprio capitalismo.

The Wall Street Journal foi recentemente associado a um grupo de polemistas conservadores [4], que a expressividade americana talvez chamasse de spin doctors [5], ou especialistas em ilusão e desinteligência. O autor do artigo [5] não é nenhum esquerdista radical, mas sim o notório Jeffrey Sachs [6].

Mas a revista The Economist, que dificilmente poderia ser chamada de esquerdista tem artigo [7] que retira a discussão do subjetivismo. Para explicar porque tantas cidades americanas se esforçam para receber as redes FFTH [8] do Google, The Economist mostra que todos os países desenvolvidos têm situação de banda muito melhor que aquele dos EUA. E os últimos argumentos que retirariam os EUA de sua má situação são derrubados no debate que promoveram os leitores do artigo [9]. Por exemplo, a densidade populacional dos EUA (32 hab/km2 [10]), apesar de maior do que de alguns países europeus — como a Suécia, com 20,6 hab/km2 [11] — não justifica uma diferença tão grande de oferta de banda larga: diz o artigo da Economist [7] que a Suécia tem banda larga de 100 megabits por segundo a 24 dólares. Ao passo que nos EUA, paga-se 145 dólares por 50 mbps [7]. Um outro ponto triste do artigo é que coloca os EUA não em décimo quinto lugar em penetração de Internet, mas como décimo-nono lugar entre os países da OECD [12].

Assim, um plano nacional de banda larga é estritamente necessário nos EUA, para manter a competitividade do país vis-a-vis outras economias desenvolvidas. E é o que propôs a administração Obama, chamada algumas vezes de não-capitalista por luminares como aqueles que escrevem em The Wall Street Journal [2].

Na página de anúncio do The National Broadband Plan (ou NBP) [13], a divisão do FCC americano, similar à ANATEL brasileira, comenta que o plano propõe um planejamento ousado do futuro dos EUA, visando o crescimento econômico, a geração de empregos e a aceleração das capacidades do país em educação, saúde, segurança e outros.

E, sim, há ousadia no NBP:

  • em 2020, pelo menos 100 milhões de lares dos EUA deverão ter acesso a conexões de banda larga de 100 megabits por segundo.

    Por mais que os números 100 milhões de banda e de alcance sejam de marketing, bandas como esta já estão presentes em países desenvolvidos, a penetração é proporcional à população do país;

  • Os EUA devem liderar na pesquisa de redes sem fio e oferecê-las em número e cobertura maiores do que aquelas de qualquer outra nação.

Outros itens da proposta propõem metas também ousadas a respeito de redes sem fio como forma de aumentar a tolerância a falhas de uma rede nacional e de aumentar a eficiência no consumo de energia [13]. Sem falar, é claro, na redução da exclusão digital através da educação dos americanos para o uso de computadores.

Um ponto importante do NBP é de onde sairá o recurso para financiar a iniciativa privada e atividades governamentais. Na versão atual do plano, comentada pelo portal Convergência Digital [14], na matéria “EUA define o Plano Nacional de Banda Larga” [14], possivelmente do Fundo de Universalização também disponível lá. Os detalhes com certeza serão negociados com o congresso, já que se estima o custo total do projeto em 350 bilhões de dólares, dos quais o governo gastaria cerca de 16, apenas.

Um ponto tocado pela matéria da Economist [7], mas deixado de lado na matéria do Wall Street Journal [3], é a explicação de porque nos EUA a banda larga é tão cara, tem tão pouca penetração e mesmo baixa capacidade.

A explicação talvez surpreenda quem ache o governo Obama realmente socialista — mas não vai surpreender quem saiba que a Economist é verdadeiramente capitalista: trata-se de falta de competição. A velha e boa competição capitalista é que faz com que as empresas façam investimentos e baixem custos.

Nos EUA, em muitos casos há um duopólio. Os comentários dos leitores da Economist a respeito do artigo [9] trazem dados interessantes: a Romênia, recém saída de uma ditatura ao estilo soviético, montou um modelo de privatização das telecomunicações, que, segundo eles, garante que bandas de 20 Mbps possam ser contratadas lá por apenas 9 euros, ou cerca de 12,5 dólares.

Enfim, um ponto importante do NBP é restaurar a concorrência entre companhias de telecomunicação. Como fazer isto é algo que terá que ser negociado com toda a sociedade. E isto inclui a participação das companhias que hoje auferem o duopólio. Talvez elas não achem isso uma boa ideia…

Enfim, haverá muita oposição que o NBP terá de enfrentar.

Referências

[1] PNBL, lá e cá (Parte 2 de 2)
https://tecnologiassemfio.wordpress.com/2010/03/11/pnbl-la-e-ca-parte-1-de-2/
Visitado em 17/03/2010

[2] https://secure.wikimedia.org/wikipedia/en/wiki/Wall_street_journal
https://secure.wikimedia.org/wikipedia/en/wiki/Wall_street_journal
Visitado em 19/03/2010

[3] A ‘National Broadband Plan’
http://online.wsj.com/article/SB10001424052748703652104574652501608376552.html
Visitado em 19/03/2010

[4] Climate sceptics are recycled critics of controls on tobacco and acid rain
http://www.guardian.co.uk/environment/cif-green/2010/feb/19/climate-change-sceptics-science
Visitado em 19/03/2010

[5] Spin (public relations)
https://secure.wikimedia.org/wikipedia/en/wiki/Spin_doctor
Visitado em 19/03/2010

[6] Jeffrey Sachs
https://secure.wikimedia.org/wikipedia/en/wiki/Jeffrey_Sachs
Visitado em 19/03/2010

[7] Googlenet: A cure for America’s lame and costly broadband?
http://www.economist.com/science-technology/displaystory.cfm?story_id=15841658
Visitado em 23/04/2010

[8] Fiber to The X
https://secure.wikimedia.org/wikipedia/en/wiki/Ftth
Visitado em 23/04/2010

[9] Googlenet: A cure for America’s lame and costly broadband? — Readers’ comments
http://www.economist.com/node/15841658/comments
Visitado em 23/04/2010

[10] USA
https://secure.wikimedia.org/wikipedia/en/wiki/USA
Visitado em 23/04/2010

[11] Sweden
https://secure.wikimedia.org/wikipedia/en/wiki/Sweden
Visitado em 23/04/2010

[12] OECD
https://secure.wikimedia.org/wikipedia/en/wiki/Oecd
Visitado em 23/04/2010

[13] The National Broadband Plan
http://www.broadband.gov/plan/
Visitado em 23/04/2010

[14] Convergência Digital
http://convergenciadigital.uol.com.br/
Visitado em 23/04/2010

[15] EUA definem o Plano Nacional de Banda Larga
http://convergenciadigital.uol.com.br/cgi/cgilua.exe/sys/start.htm?infoid=21996&sid=4
Visitado em 23/04/2010

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PNBL, lá e cá (parte 1 de 4)

11 de março de 2010

Hilton Garcia Fernandes

O debate sobre o Plano Nacional de Banda Larga, ou PNBL [1], está se aquecendo. Mas já se mostram posições excessivamente ideológicas, o que compromete o debate. Por exemplo, atribuindo a idéia do PNBL a um viés estatista ou até esquerdista do atual e, possivelmente, do próximo governo federal.

Assim, o propósito deste conjunto de textos é contribuir para que a discussão da iniciativa importante do PNBL passe a ocorrer sobre terreno firme. Afinal, além do tema atrair a polêmica entre privatistas e estatistas, este é um ano de eleições — e há mesmo vozes muito equilibradas que afirmam que a atual formulação do PNBL é principalmente eleitoreira [2].

Um ponto importante é admitir que, de fato, ele pode ter impacto nas eleições. E que a atual equipe dirigente, inegavelmente hábil, pode realmente o estar usando com interesses eleitorais.

Contudo, ainda assim, é iniciativa que tem muito mérito e, com certeza, necessidade em um país no qual a banda larga é das mais caras do mundo [1]. Sendo assim, não se deve permitir que o tema tão importante se esgote em discussões que são de saída infrutíferas.

Uma das formas de se atingir uma visão menos parcial — afinal, todos temos uma — é comparar o incipiente PNBL nacional com outras iniciativas em todo mundo. Isto nos vai permitir observar se, de fato, são esquerdistas que promovem PNBL. E, eventualmente, vai nos ajudar a lidar com o complexo que Nelson Rodrigues atribuía a toda nação brasileira [3].

Há vários países que estão planejando nacionalmente suas redes: muitos têm mesmo uma tradição de planejamento: são desde países socialistas, como China, até países que, mesmo sendo inegavelmente capitalistas, têm políticas de planejamento estruturante. Por menos que os mercadistas admitam, entre eles estão os EUA. Sem falar em Alemanha e outros países, que alguns consideram social-democracias e, por isso, menos capitalistas.

Mas também há entre os países que planejam nacionalmente sua oferta de banda larga aqueles que estão entre os países em desenvolvimento e consideram importante estruturar sua oferta de banda larga, estimulando setores sem o desenvolvimento esperado e reativando a concorrência, no melhor sentido da palavra.

Por último, além da necessidade em si de políticas nacionais, há a necessidade premente de se ativar a oferta de banda-larga: ela é causada pelos celulares modernos que devem consumir crescentes quantidades de banda da Internet [4], devido ao 3G [5] que usam, e também ao Wi-Fi [6]. Sem falar, é claro, no esgotamento de endereços IP [7].

Seguem alguns exemplos de políticas públicas sendo propostas para diversos países.

Austrália

A Australia [8], uma democracia liberal, dificilmente poderia ser chamada de um país socialista. Apesar disso, a forma com que decidiu abordar o problema de sua rede nacional de banda larga [9] poderia ser chamado de esquerdista por algumas pessoas ideologicamente mais pró-mercado. A Australia abriu uma licitação (ou bidding) e, apesar de várias companhias terem se inscrito, considerou-se que nenhuma proposta atendia os requisitos do edital (ou RFP) [10].

Por isso, foi constituída uma companhia estatal, a NBN [11], para implantar a rede nacional.

Apesar de ser muito tentador comparar o caso brasileiro com o estatal — a Telebras é estatal, a NBN também –, os termos da comparação são equivocados:

  • lá se fala em FTTH [12], com velocidades de 20 Mbps para 90 % da população, 12 Mbps para o restante [9], aqui falamos em menos de 1 Mbps para cerca de 70% da população, segundo o Ministério das Comunicações [13];
  • lá se procurou o modelo estatal devido à crise financeira mundial [11], aqui a razão para se considerar isso foi a falta de investimento da indústria — não importa a razão que levou a isso: falha do modelo das telecomunicações, excesso de impostos etc.

Um ponto interessante é que os valores aventados para projetos tão diferentes são relativamente próximos: no caso da Australia, cerca de A$ 43 bilhões para cobrir o país [9], ou US$ 39 bilhões [14], com FTTH [12]; no caso do Brasil, fala-se em R$ 75 bilhões [13], ou US$ 42 bilhões [14].

Porém, esta é uma comparação inadequada, de vez que, apesar da área territorial dos países serem semelhantes, a população da Australia (um décimo da brasileira) é principalmente concentrada no litoral. Na verdade, fontes mais afinadas com a equipe que está discutindo o PNBL (infelizmente o Min. das Comunicações não é parte integrante dela), estimam em cerca de R$ 20 bilhões [15], ou US$ 11 bilhões [14], o custo de PNBL brasileira.

Fontes à esquerda criticaram fortemente todas as propostas do Min. das Comunicações [17], como puro lobby das teles que atualmente dominam o mercado. Contudo, o PNBL brasileiro está ainda sob discussão [18].

Nas próximas postagens desta série serão discutidos os planos nacionais dos EUA. Malásia e África do Sul.

Referências

[1] Plano Nacional de Banda Larga: primeiras ideias
https://tecnologiassemfio.wordpress.com/2010/02/19/plano-nacional-de-banda-larga-primeiras-ideias/
Visitado em 06/03/2010

[2] Telebrás, Eletronet e PNBL (170) – Ainda a “Reunião do PNBL” + O “Anãozinho” + Resumo sobre o FUST + A Lei do FUST (íntegra)
http://www.wirelessbrasil.org/bloco/2010/fevereiro/fev_39.html
Visitado em 11/03/2010

[3] Complexo de vira-lata
https://secure.wikimedia.org/wikipedia/pt/wiki/Complexo_de_vira-lata
Visitado em 06/03/2010

[4] BROADCASTING AND THE BROADBAND FUTURE: A PROPOSED FRAMEWORK FOR DISCUSSION
http://www.nab.org/documents/newsRoom/pdfs/122209_SpectrumFramework.pdf
Visitado em 11/03/2010

[5] 3G
https://secure.wikimedia.org/wikipedia/en/wiki/3G
Visitado em 06/03/2010

[6] Wi-Fi
https://secure.wikimedia.org/wikipedia/pt/wiki/Wi-fi
Visitado em 06/03/2010

[7] Agotamiento de las direcciones IPv4
https://secure.wikimedia.org/wikipedia/es/wiki/Agotamiento_de_las_direcciones_IPv4
Visitado em 06/03/2010

[8] Australia
https://secure.wikimedia.org/wikipedia/en/wiki/Australia
Visitado em 11/03/2010

[9] National Broadband Network
https://secure.wikimedia.org/wikipedia/en/wiki/National_Broadband_Network

Visitado em 11/03/2010

[10] EXTRACT FROM THE EVALUATION REPORT FOR THE REQUEST FOR PROPOSALS TO ROLL-OUT AND OPERATE A NATIONAL BROADBAND NETWORK FOR AUSTRALIA
http://www.dbcde.gov.au/__data/assets/pdf_file/0007/110014/Summary_observations_for_website.pdf
Visitado em 10/03/2010

[11] National Broadband Network: 21st century broadband
http://www.dbcde.gov.au/all_funding_programs_and_support/national_broadband_network
Visitado em 10/03/2010

[12] Fiber to the x
https://secure.wikimedia.org/wikipedia/en/wiki/Fiber_to_the_x
Visitado em 11/03/2010

[13] UM PLANO NACIONAL PARA BANDA LARGA: O BRASIL EM ALTA VELOCIDADE
http://www.mc.gov.br/wp-content/uploads/2009/11/o-brasil-em-alta-velocidade1.pdf
Visitado em 11/03/2010

[14] Xe.com: AUD to USD rate: 1.0 AUD = 0.915068 USD
http://www.xe.com/ucc/convert.cgi?Amount=1&From=AUD&To=USD&image.x=52&image.y=9&image=SubmitVisitado em 11/03/2010

[15] Xe.com: BRL to USD rate: 1.0 BRL = 0.564724 USD
http://www.xe.com/ucc/convert.cgi?Amount=1&From=BRL&To=USD&image.x=49&image.y=15&image=Submit
Visitado em 11/03/2010

[16] Telebrás, Eletronet e PNBL (180) – Análise de Clóvis Marques sobre a reativação da Telebrás
http://www.wirelessbrasil.org/bloco/2010/fevereiro/fev_51.html
Visitado em 11/03/2010

[17] “Telebrás no PNBL é a garantia da universalização da banda larga”
http://www.vermelho.org.br/noticia.php?id_secao=6&id_noticia=118549
Visitado em 11/03/2010

[18] “Telebrás, Eletronet e PNBL (211) -“Plano de banda larga pode não sair do papel este ano e Telebrás despenca no pregão” + “Você é acionista e não sabe?” + Msg de Clóvis Marques sobre a audiência pública no Senado”
http://www.wirelessbrasil.org/bloco/2010/marco/mar_33.html
Visitado em 11/03/2010

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